BATALHA DE
ALJUBARROTA
Tratando-se de um facto histórico
da maior importância, a Batalha de Aljubarrota tem também um sentido religioso
muito
significativo, à luz da vida cristã
e religiosa no futuro de Portugal.
Portugal jogava a sua grande
cartada na procura de uma consagrada Independência final e bem arreigada.
E fazia-o com a sua grande
confiança na força de todos os Portugueses, mas também confiado na
extraordinária
protecção da Sempre Virgem Maria a
quem prometeu erguer o monumento de Santa Maria da Vitória no lugar que se
ficaria a chamar Batalha.
Por seu turno, os Espanhóis também
não queriam abdicar do seu já longo desejo de dominar Portugal, aquele pequeno
reduto, que tanto os incomodava, e
lhes aparecia sempre como um David contra Golias.
D. João de Castela não queria
repetir o erro de entrar em Portugal quase desacompanhado de tropas, como se a
vitória
contra os Portugueses fosse uma
coisa fácil.
Mandou apregoar a guerra por todo o
reino e foi concentrando na fronteira contingentes vindos de toda a parte.
O próprio rei quis iniciar as hostilidades e foi pôr
cerco a Elvas.
Ao fim de poucos dias chegou a
notícia de um revés grave : as tropas de
João Rodrigues de Cantanheda e do Alcaide-mor
de Toledo, acompanhadas por outros
importantes fidalgos espanhóis, tinham-se infiltrado na Beira e penetrado até
Viseu ;
quando regressavam com gados e
prisioneiros travaram combate, junto de Trancoso, com forças portuguesas e
tinham
sido vencidos.
Da coluna espanhola, formada por 400 lanças, havia poucos sobreviventes.
Repetira-se na Beira a situação dos
Atoleiros : a cavalaria castelhana
julgara poder esmagar a peonagem reunida à pressa
pelas aldeias e deixara-se vencer.
No Norte do país, D. João I e Nuno
Álvares, já nomeado Condestável, reduziam uma a uma as vilas do partido
adversário
: Neiva, Viana, Guimarães,
Braga e Ponte de Lima.
O rei de Castela iniciava entretanto a invasão pela
fronteira da Beira.
Desceu o vale do Mondego, passou
junto de Coimbra, onde o não deixaram entrar, e encaminhou-se para Lisboa, pela
estrada de Leiria e Alcobaça.
Acompanhavam-no tropas muito numerosas :
- Fernão Lopes refere-se a 5000 lanças (20.000 homens), mais 2000 ginetes (cavalaria ligeira), 8000 besteiros e 15000
peões.
- Froissart fala em 20000 cavaleiros, mais 2000 franceses.
Os Portugueses seriam
:
- Para Fernão Lopes, 1700 lanças,
800 besteiros e 4000 peões.
- Para Froissart seriam 10000 homens o que não anda longe dos números
precedentes.
Todas estas indicações têm de ser
tomadas com reserva, mas é certo que a desproporção de forças era enorme e
todos
os autores lhe fazem referência.
Nuno Álvares decidiu (como já quisera fazer no ano anterior),
interceptar a marcha do invasor e evitar que voltasse a pôr
cerco à capital.
As tropas portuguesas foram
colocadas junto à estrada para Lisboa, entre Leiria e Alcobaça, num lugar de
passagem
obrigatória do exército de Castela.
O
plano era temerário, porque as tropas portuguesas não dispunham de víveres e
não podiam manter-se muitas horas
naquela posição; bastava que soa Castelhanos se limitassem a
deixar passar o tempo para que os nossos tivessem que
retirar, o que, segundo as regras de
cavalaria, representava a derrota.
Um embaixador do rei de França
apercebeu-se da situação e expô-la a D. João de Castela.
Mas os fogosos jovens que formavam
a vanguarda do exército real entenderam que não era uma solução honrosa e
reincidiram no erro de Atoleiros e
de Trancoso : subestimaram o valor
militar daquela peonagem mal armada, muralha de
lanças colada à terra, com os cotos
da lança cravados no solo.
O Condestável tinha escolhido um
terreno que a superioridade numérica pouco ajudava os Castelhanos : uma peneplanície
aparente, mas realmente cortada por
dois barrancos, sulcos de ribeiros, que se iam aproximando um do outro e que
eram
suficientemente fundos para
provocarem a queda de cavalos e cavaleiros.
À medida que avançavam, os
cavaleiros apertavam-se uns contra os outros e não podiam estacar, porque os
que vinham
atrás empurravam-nos.
"Os peões e lanceiros de
Portugal eram muitos e atiravam muitos dardos, setas e pedras, de modo que os
cavaleiros não
puderam entrar neles",
escreveu o cronista Ayala, que goza de especial autoridade por ter tomado parte
na batalha, onde
foi feito prisioneiro.
Muito antes de poderem terçar
armas, os cavaleiros de Castela eram alvo das pedradas dos fundibulários que
Nuno
Álvares trouxera do Alentejo, dos
tiros dos besteiros portugueses e do rápido golpe dos archeiros chegados de
Inglaterra e
cujo número se supõe atingir as
sete centenas.
A situação invertia-se : a batalha transformava-se num massacre, mas
os massacrados eram os Castelhanos.
Estávamos perante uma situação de
uma Batalha Real, por se travar entre dois reis.
Com bravura, o exército português
insistiu durante meia hora : E duró la porfia de la batalla, antes que
pareciese quales
perdian ó ganaban, media hora assaz pequeña, informa Ayala.
É essa insistência que explica o
número de mortos, extremamente elevado para um embate tão rápido.
A lista dos grandes fidalgos
espanhóis (e portugueses que com eles vinham)
que morreram na batalha é
surpreendentemente alta e revela
provavelmente que morreram os que, dada a proeminência das suas posições
sociais,
cavalgavam nas filas dianteiras.
Por outro lado, a tradicional
cortesia cavalheiresca, que muitas vezes convertia os combates em
espectaculares torneios
em que só acidentalmente se perdia
a vida, não funcionou em Aljubarrota.
Nem os temidos frecheiros ingleses
nem os soldados alentejanos que acompanhavam Nuno Álvares tinham sido educados
nessa escola.
A luta era para eles de vida ou de morte.
Por isso Aljubarrota foi um facto
decisivo na história nacional, e sê-lo-ia também para a história cristã e
religiosa desta
Terra de Santa Maria.
O rei de Castela, a coberto da
noite, atingiu Santarém e aí tomou uma embarcação que o levou ao estuário do
Tejo, onde
uma nau castelhana o recolheu e
levou a Sevilha.
O pânico apoderou-se dos seus partidários.
Santarém entregou-se imediatamente
ao novo rei : Leiria, Óbidos, Torres
Vedras, Alenquer, Torres Novas, o muito
alto e
fragoso castelo de Sintra, o Crato, Monforte, Vila Viçosa,
Mourão e muitos outros lugares, cujos alcaides, diz Fernão Lopes
, não se quiseram vir à batalha, mas aguardavam por ver quem venceria,
aderiram à causa da vitória.
Ver : Dinastia de Avis.
Mosteiro da Batalha. Padeira de
Aljubarrota.
Santa Maria da Vitória. Santo Condestável.